|
|
|
Sala de Imprensa
ACORDAR O CORPO
Sintonizar desajustes, corrigir posturas, alongar-se... e depois dançar. Por puro prazer, sem rigidez da técnica. Três mestres do movimento – Bia Ocougne, Ivaldo Bertazzo e Rainer Vianna, dão aqui os toques de relaxamento e alegria.
Reportagem: Lucy Dias
Foto: Rui Mendes
“Agente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte: a gente não quer só comida, a gente quer inteiro e não pela metade...”
Esse maracatu dos Titãs é um hino contemporâneo: nada mais fundamental hoje do que batalhar por mais qualidade em nossas vidas. E essa luta leva inevitavelmente a uma consciência do corpo. De um mero meio de locomoção, ele se transforma em um meio de expressão e de ocupação de espaços no mundo.
“A gente não quer só comer, a gente que prazer para aliviar a dor...”
O prazer de estar vivo é a grande meta a ser atingida. Não basta mais ao homem apenas sustentar-se de pé, manter sua postura ereta. Ele quer mais – o jogo de cintura, a flexibilidade, o movimento mais bonito, enfim, ser como nunca pode ser: inteiro.
“Ousemos começas”, propõe Therese Bertherat em seu primeiro livro O Corpo Tem Suas Razões (Editora Martins Fontes). Nele, Bertherat convida cada um a habilitar o proprio corpo para evitar o sofrimento. Ela diz que a cada vez que você se crispa, se bloqueia; cada vez que se enerva, enrijece um músculo – porque e pela ação muscular que a gente exprime, Conscientemente ou não.
Sem consciência do que se passa com o corpo, a gente produz excesso de força em pontos errados, sobrecarregando certas partes e tirando energia de outras. Com o tempo, o desequilíbrio do corpo se torna inevitável. E um corpo desequilibrado esta a um passo de sérios desvios de postura, como lordose, escoliose, cifose, artrose, ou ainda problemas nos joelhos e dores eternas nos ombros e ao longo da coluna. Por isso, consciência e a palavra-chave de todo o trabalho corporal que busca colocar a pessoa no eixo, ou sobre sesus encaixes, como preferem os mestres do roque Bia Ocougne (35), Ivaldo Bertazzo (40) e Rainer Vianna (31).
Ao contrario do que muita gente pensa, a busca do movimento consciente tem hoje objetivos e técnicas muito bem definidos e, para cada um desses gurus do corpo, dançar e muito mais do que somente agitar pernas e braços num certo ritmo. Alias, para a grande mestra de todos eles, Isadora Duncan, “a dança não é apenas uma arte que permite a alma humana expressar-se em movimentos, mas também a base de toda uma concepção de vida – mais flexível, mais harmoniosa, mais natural”.
“Qualquer pessoa e capaz de dançar (amenos que tenha algum impedimento físico)”, garante Ivaldo Bertazzo, que trabalha com o corpo há mais de 20 anos. Não vale dizer que não sabe, ou que não tem jeito para a coisa. Se quiser, pode. Para começar, é necessário descobrir que o quadril e o centro físico do individuo: que o corpo precisa da sustentação dos pés: que o movimento nasce dos encaixes dos ossos. E esse três pontos são fundamentais.
“Para tocar bem um instrumento é preciso aprender todas as notas. Conhecer o próprio corpo passa por entender que a musculatura e como as cordas do violão – se esticar demais, arrebenta”, adverte Rainer Vianna, professos de dança, filho de herdeiro de Angel e Klauss Vianna, os “papas” do assunto no Brasil. “O movimento feito bruscamente e com força rompe as fibras e a pessoa vai perdendo força muscular”. Continua Rainer.
Para ele, a questão tempo é fundamental para se chegar a um alongamento real. Coisa difícil de se conseguir na vida de quem vice ansiosamente correndo e quer entrar em forma em apenas um mês.
“Aí, não vai dar, porque é através do alongamento e da dança que se constrói e da dança que se constrói um corpo para a vida inteira – e isso leva um pouquinho mais de tempo do que se está normalmente acostumado. É preciso ir por partes, trabalhar detalhes, descobrir as articulações, aprender a usar o chão e se pôr sobre os pés”, dispara Rainer. Assim, não é por acaso que ele trabalha durante quatro meses só o pé do aluno, fortalecendo a base corporal até conseguir um bom tônus muscular, “É pelo espaço adquirido através do alongamento entre uma articulação e outra que se cria o tônus muscular”, ensina. E o gesto correto levará a pessoa a também respirar melhor, o que, por sua vez, trará alegria e bem-estar. “Geralmente quem está começando não tem presença”, observa Rainer, discípulo de Gherda Alexander, criadora da Eutonia. “É como se olhassem sem ver; escutassem sem ouvir. O grande toque é para que a pessoa ocupe seu espaço e se faça e se faça presente na aula e na vida”, diz.
“Absurdo alguém querer perder a barriga”
Toda essa linguagem, que para muitos soa até certo ponto vaga, se traduz em técnicas precisas, nas quais o aluno sente a mudança que vai ocorrendo aos poucos com seu corpo. Cada aula, segundo Bia Ocougne, psicóloga e bailarina; há 19 anos trabalhando com o corpo, faz parte deste processo de autoconhecimento corporal. Ela a atenção para um “pequeno detalhe”: não é a quantidade que leva ao resultado, mas a qualidade. Ou seja, nesse tipo de trabalho corporal, ninguém precisa se matar para perder a barriga, por exemplo.
Na verdade, Bia acha um absurdo quando uma pessoa diz que quer “perde” a barriga. “todo mundo deveria desejar ganhar uma”, acredita a psicóloga, lembrando que a barriga também faz parte do eixo do corpo. Em sua opinião, para dar tônus aos músculos abdominais não é preciso fazer-se 40 abdominais. Bastam cinco exercícios bem feitos para se chegar a bons resultados. A diferença entre esse movimento consciente e o puro exercício mecânico do abaixa-levanta é saber colocar intenção no movimento que, aliado à respiração correta, atinge as camadas mais profundas da musculatura. “E assim que se ganha uma barriga mais durinha e tonificada”, exemplifica. Quando alguém deseja entrar em forma, Bia lembra que boa forma “não é por partes, mas pelo todo integrado”.
“È preciso reorganizar a tensão, jamais jogá-la fora”
Para integrar esse todo, além do movimento consciente e da técnica aplicada em aula, o toque verbal é fundamental, segundo Ivaldo Bertazzo. “A palavra é muito importante para um bom trabalho corporal. Além do fazer e mexer, é preciso que o professor saiba utilizar a palavra certa que, unida ao movimento, produz a mudança do corpo.”
Para atingir essa transformação é preciso investir de quadro a cinco anos num constante trabalho de aprimoramento físico. Só então, uma nova postura se incorpora a você e a casa não ruirá mais. “Uma pessoa pode chegar aos 60/70 anos com uma atitude digna, um corpo em forma, um bem-estar com a vida”, acredita Ivaldo. Para ele, é importante não desprezar a tensão do dia-a-dia, mas, sim, saber trabalhar com ela. “É preciso reorganizar a tensão e o que segura a pessoa. Mas como ninguém é tenso por inteiro, a tensão se concentra em circuitos, é necessário redistribuí-la”, ensina.”As pessoas respiram mal, sentem muita tensão nos ombros porque, anatomicamente falando, utilizam muito pouco a bacia e a coxa.”
Na opinião de Ivaldo, a cadeia muscular mais importante do corpo é essa usada pela criança para andar de skate ou pelo surfista para se manter na prancha. É o circuito muscular do equilíbrio. Não é nem a cadeia de músculos posteriores (“Que a maioria fica preocupada em esticar”), nem a anterior (“Que mexe com o afetivo”).
“TODA DANÇA É IMPORTANTE PARA DAR UM TAPA NO AUTOMATISMO E RECRIAR A VIDA QUE É GERADA PELO PRAZER DO MOVIMENTO – É ISSO QUE TIRA AS CARACTERÍSTICAS FIXAS DA AUTO-IMAGEM” (Bia Ocougne)
É a cadeia interna que trabalha na extensão da coluna. Por isso, Ivaldo usa, além da própria dança, uma prancha inventada pelo fisioterapeuta suíço Hervé para estimular músculos que trabalha exatamente com o equilíbrio quando em constante movimento”, afirma ele.
A mesma prancha – um disco de madeira apoiado sobre uma metade de esfera também de madeira – é usada ainda para trabalhar a torção (flexibilidade) dos cotovelos, punhos e tronco dos alunos, que a pegam numa das mãos e fazem movimentos que lembram o clássico lançamento de disco no atletismo.
As pessoas buscam os mestres para se manterem melhor de pé.
Humor e leveza são ingredientes básicos que entram nas aulas dos três mestres do toque. Eles podem variar o tipo de dança – flamenco, dança do ventre ou música clássica - , mas o que há de comum entre eles é a busca de querer colocar a pessoa “presente”. Um toque fundamental que já levou muita gente a descobrir que não dá para viver sem essa qualidade. São pessoas que buscam os espaços de Bia, Ivaldo e Rainer para literalmente se manterem melhor em pé, como ser vivo que respira e se transforma através da dança. “Quem sai do escritório e procura a gente para dançar, não está preocupada em fazer o passo certinho, dançar perfeitinho. Ele quer se movimentar, achar o exercício do passo’, fala Ivaldo Bertazzo, que colocou, em outubro passado, 126 pessoas em cena no palco de um teatro em São Paulo, todos alunos seus. Pela via do prazer e não da dor, da consciência e não do gesto automático, fica fácil freqüentar as aulas duas vezes por semana e até lamentar quando não dá para ir. “Para mim, funciona como uma válvula de escape para toda tensão que carrego no dia-a-dia”, diz Terezinha de Jesus, aluna de Bia Ocougne há mais de quatro anos. “As vezes”, afirma ela, “chego na aula deprimida e, hora e meia depois, saio leve.”
07/05/2008 00:00 - Revista Boa Forma
|
|
|
|
|
|
 |